Entrevista: Laura Gutman fala sobre a maternidade

12/07/2017 | 0 comentários
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Tatiana Cruvinel- A mulher pode, de alguma forma, se preparar para uma maternidade mais leve e sem culpa?

Laura Gutman- Não há forma de preparar-se para a maternidade, porque não há como se preparar para o desconhecido. Quando já estamos no ato da "maternagem" nos damos conta do que necessitamos. E o que mais necessitamos é apoio, acompanhamento e ajuda de quem seja. O homem que está ao nosso lado, nossa família, nossa doula, nossas amigas, nossa rede. Que nos permita mergulharmos em nosso próprio território emocional, mesmo que doa, mesmo que seja difícil. Temos que poder entrar em contato com nosso interior, porque só dessa maneira vamos poder tolerar a intimidade emocional que nosso filho nos está pedindo.

Como lidar com as dificuldades emocionais no puerpério?

O puerpério é difícil se pretendemos não atender a todos os nossos sentimentos e nossas vivências internas. Aí o puerpério se torna um período muito complicado porque estamos em uma luta permanente entre o que acreditamos que tem de ser e o que nos está acontecendo internamente. Mesmo que tenhamos tido vidas difíceis, se nos permitirmos mergulhar nas vivências caóticas, complicadas e não compreensíveis de nosso ser interior, vamos poder fluir bem. O grande problema do puerpério é a luta que estabelecemos, querendo que voltemos a ser a mulher que éramos antes, quando nunca mais vamos voltar a ser quem éramos. Por sorte. Porque antes, vivíamos em uma cegueira, e agora, submergindo à nossa sombra, poderemos estar em contato com nossa própria verdade.

Atualmente há uma maior busca por esse mergulho emocional, por esse contato com a própria verdade, por parte das mães?

Não sei se estamos melhores do que as gerações passadas. O que está melhor, graças à tecnologia, é que temos acesso a informação. E podemos usar essa informação para entrar mais em contato com nosso ser interior ou descartar essa informação. Às vezes vejo tanto horror, tanta dificuldade, tanta distância, que tenho dias ruins, quando penso que as coisas não vão avançar. E outras vezes vejo milagres, vejo mulheres que embarcam em processos individuais tão valentes que me parece que tudo é possível.

Fale um pouco sobre seu livro “O que aconteceu na nossa infância e o que fizemos com isso”, que será lançado em breve no Brasil.

É um livro onde desenvolvo todas as minhas pesquisas sobre como geramos nossos desequilíbrios mentais. Ninguém nasce desequilibrado mental. Isso é consequência da crueldade, da violência, da desconexão e da incompreensão que nós adultos temos sobre as crianças ou que os adultos tiveram sobre nós mesmos quando fomos crianças. Seria quase um tratado de antipsiquiatria, que não é uma questão incomum. Lamentavelmente, é muito comum. Em minha equipe atendemos muita gente que sofre muitíssimo de desequilíbrios e desarranjos emocionais e psíquicos, e que necessitam de muita compreensão, muito amor, muito abraço, muita proximidade emocional. E nós estamos dizendo que estamos curando aparentemente incuráveis, como psicóticos, esquizofrênicos e tanta gente que está medicada, atordoada, idiotizada, inclusive internada, sem vida, sem desdobramento. Nós estamos podendo, compreendendo com essas pessoas de onde vieram, realmente resgatar esse ser maravilhoso que vive no interior de cada um.

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